terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Novos tempos, velhas roupagens

Caro leitor fantasma,

peço desculpas por reaparecer de tempos em tempos. Sei que deveria vir com mais freqüência, mas percebi que ao longo de minha caminhada desaprendi a expressar meus sentimentos de forma clara.
Muita coisa aconteceu desde minha última aparição por aqui, mas algo permanece o mesmo desde que era pequena: a sensação de ser objetificada.
Mesmo com longos anos de terapia, ainda é muito difícil olhar pra mim mesma e não me ver como um objeto qualquer. Desde muito nova eu fui vista como adorno sexual masculino.
A primeira vez aos 6 anos. A segunda, aos 8. E assim sucedeu até chegarmos no momento presente.
Hoje, aos 26 anos, encontro-me no auge de minha angústia e de questionamento da própria existência. Mesmo sob os cuidados de uma terapia por longos anos, ainda tenho dificuldade em me enxergar como ser humano.
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Estou a 40 minutos tentando colocar em palavras a bagunça que está na minha mente, mas como sempre... acabo apagando e reescrevendo, várias e várias vezes até que saia minimamente inteligível.
Me envolvi com um rapaz mais jovem, de novo. Parece até que estou revivendo meu passado... é estranho e nostálgico ao mesmo tempo. Ele tem aquele frescor dos 20 e poucos anos, aquela imaturidade condizente com seu momento e que, de alguma forma, torna-se até charmosa. Olho pra ele e um calorzinho gostoso me brota no peito, uma vontade de abraçar esse novo.... mas esse sentimento só dura enquanto estamos fisicamente presentes. No momento em que coloco meu pé de volta a minha realidade, percebo que novamente me sujeitei à ser objetificada por um homem mais novo sob a perspectiva de adquirir uma utilidade para mim.
O choque é doloroso, intenso e muito real.
A diferença numeral não é grande, mas a de experiência é gigantesca. Enquanto ele está no auge de sua juventude explorando a vida, seu corpo, seus limites e suas metas, eu me encontro no auge de minha maturidade, de questionamento do meu 'eu' e de reavaliação de posturas perante a vida.  Hoje percebo que não posso exigir de alguém mais do que essa pessoa está disposta a me oferecer, muito menos algo que vá além de sua capacidade. Talvez seja por isso que a frustração, quando surge, dura pouco.
Talvez eu tenha aprendido algo com meus relacionamentos passados. Talvez.
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Que surpresas e aprendizados a vida me reserva com isso?
Ainda não sei, mas tenho uma leve desconfiança.

Prometo voltar e contar sobre meu processo de transformação.
Eu demoro, mas sempre volto.

Com carinho,
T.